1818

"Sem presumir do futuro o que sairá daqui, nada ou quase uma arte"

Mallarmé (Un Coupe de Dés).

pluto, alcalino,blogspot

Capítulo 30 - Ensaio

Alice tinha os olhos castanhos, azuis e quase sempre lilás. Tinha corpo de menina e alma de quem já viveu. Viveu em mundos longe desse, alegres ou tristes, eu não saberia dizer.

Levou-me para o sul, para o norte e um pouco mais além. Bebemos tinha guaxe até congelar o ser e juramos nosso amor enquanto o sol foi dormir. Ela reluzia e saia para voar. Chamou-me algumas vezes.. Agora está por lá.

[Alice é livre, solta e bordada de estrelas]

Capítulos 29

“Como ele é, pra você?” Garrel me pergunta. Está sentado sob um baixo muro de pedra; Os pés mergulhados no lago onde estou. “Ele tem tons d’um azul tão forte qu’eu nunca pude realmente ver seus traços. Os pés sempre no ar.. É uma explosão de fogos de artifício e todas as copas de árvores que me cruzam o caminho.” A correnteza brinca com minhas veias e roça-me os anseios “Só não me pergunte como ele é pros outros, porque isso ele nunca foi pra mim”

Capítulo 28

Stella está sentada em seu café favorito lendo contos de Poe. Observo-a de longe, sem a intenção de me aproximar; gostava de vê-la quieta, assim, como se nada existisse.

Um homem se aproxima, “Porque és tão quieta?” Ele pergunta. Ela vira outra pagina, olha-lhe nos olhos. “Sou triste.”

“Também sou.”

(Source: wishingwha1e)

Capítulo 27

Querido Nick,

Eu aceito.

Capítulo 26

O meu lugar favorito em toda a Alemanha se chama Insônia. Tem as paredes cor de cinza e todo dia, às 04h06 da manhã, toca “Whe I grow up” do Fever Ray.
Costumávamos ir lá, às terças. Eu, Garrel e seus três amigos (cujos nomes eu nunca soube). Esperávamos o cuco, que ficava na parede perto do bar, cantar seu nome quatro vezes e então bebíamos um vinho barato; que sempre chegava ao fim antes do começo da música.
Também íamos a uma praça, a setenta e cinco passos do Insônia, onde Garrel e seus amigos faziam sua música. Para que todos entendessem que o importante em sua música era tudo, menos as palavras: cantavam em todas as línguas que não fossem o Alemão.

Eu ficava em um banco próximo e vez ou outra um deles vinha dar um trago em minha bebida. Conversava comigo por vinte minutos, ou uma hora. Sempre o suficiente pr’eu entender que a pouca importância que davam às palavras em sua música equilibrava-se com a muita importância que davam a essas em sua vida.

Falavam e falavam e falavam, até que suas almas fluíssem e não precisassem mais se concentrar. 

Capítulo 25

O relógio finalmente bate as duas badalas pelas quais tanto anseio ouvir. Abres a porta.

Tuas mãos guardam cicatrizes tão belas.. És magra, tem a pele alva, e ainda guarda o cheiro mais fresco do mundo nos cabelos. Leva-me até a sala; a parede coberta por cartas direcionadas à mim e uma árvore com folhas em formato de palma “Ainda pinta?” pergunto-lhe. “Ainda guardo um galho para tuas mãos, sim”

Posso ver borros de tinta em teus pés. Vertigem sobe-me a espinha. Se ao menos soubesse o quanto queria lhe dar o sol..

Capítulo 24

Pequena Sarah,

Há cinco dias venho até tua porta; sempre às duas da manhã, como nos era de costume, mas não tenho coragem de bater. Pensamentos sobre como não moras mais aqui me corroem e posso, até mesmo, vê-la embarcando em um avião. Cada dia dói-me mais aquela dor que só teu sorriso sabe curar.. Pergunto-me se a dor me desconfigurou tanto o rosto que não me reconheceria mais. Ou se só se esqueceu.

Sonhos e goles de um vinho barato,
Nick

Capítulo 23

Embarco no trem. Nada além de meus cigarros cobertos por desenhos d’uma tinta ainda fresca me acompanha. O trem é enorme, mas a cabine é pequena; apesar de só ter um outro alguém, me resta apenas um lugar.

O sol escorrega pela janela, já estamos a três horas da frança. Ele ainda não travou nenhum contato visual, lê A Metamorfose de Kafka.

- Se incomoda s’eu fumar? - Digo após um trago.
- Ora, sinta-se a vontade. Contanto que estes desenhos não a matem em minha presença.

Pressionei o cigarro contra o punho de meu casaco, apagando-o. Tinham sido dias muito azuis, como já diziam os cortes; Alias, tive os cortes pois não há nada melhor que um pouco de vermelho num dia azul.

- O que a trouxe a esse trem? - Ele me pergunta, repousando o livro sob o banco.
Sorrio - Vou á Alemanha buscar uma nova inspiração.
- Que há de ruim na velha?
- Nada. Alias, é a melhor inspiração do mundo; mas só foi assim pra mim.. E você, que o trouxe a um trem a caminho da Alemanha?
- Eu vou a Alemanha como quem vai a qualquer outro lugar. Tem sido assim há muito tempo e agora só procuro um tom que me faça parar.

Quando caiu no sono, as paginas de teu livro me contaram seu nome. Chamava-se Garrel.